Tipos de Algoritmo – Parte II : A Orquestra

Tipos de Algoritmo – Parte II : A Orquestra

“The sound of the orchestra is one of the most magnificent musical sounds that has ever existed.”  

Chick Corea

Se você já teve a oportunidade ir numa orquestra, conseguiu perceber que a harmonia deriva da complexa combinação de diversos personagens. Como regra geral, uma orquestra possui músicos, maestro, engenheiro e técnico de som.

Cada músico toca um instrumento diferente, de acordo com sua partitura. Alguns tocam ininterruptamente, constituindo a base da melodia que está sendo apresentada, enquanto outros entram em momentos específicos, desenvolvendo solos que encantam a plateia.

Em um palco elevado encontra-se o maestro, que possui uma visão completa de toda a orquestra. Com os movimentos ágeis das mãos e sua expressão corporal, rege cada um dos músicos que, se executados perfeitamente, irão produzir um espetáculo memorável para os espectadores.

O engenheiro e o técnico de som também desempenham papéis fundamentais. O primeiro fica longe dos olhares da plateia e controla, através de uma mesa de som, o volume dos instrumentos de cada um dos músicos. Ele leva em consideração a harmonia do conjunto dos instrumentos e o momento específico da entrada e saída na performance.

Para maximizar a sensação de imersão dos espectadores, todos os instrumentos da orquestra estão conectados a amplificadores e são controlados pela mesa do nosso último personagem: o técnico de som. Ele tem o poder de distribuir os sinais elétricos de cada um dos instrumentos entre as diferentes caixas de som espalhadas pelo local de apresentação.  Seu objetivo é observar fatores externos à orquestra (ruídos do ambiente, eco, etc) para otimizar a experiência final da plateia.

A orquestra é muito similar a um fundo quantitativo, no qual cada personagem tem sua responsabilidade de forma a garantir a qualidade (performance) do show e a imersão dos espectadores.

Vamos então explicar cada um dos tipos de algoritmos (“modelos”) que compõem um fundo quantitativo.

Os Músicos

Em nossa orquestra, os músicos equivalem aos Modelos de Alpha. Definimos este tipo de modelo no artigo “Tipos de Algoritmo – Parte I : Algoritmos de Estratégia” (recomendamos ler o artigo parte I antes de continuar a leitura desta 2° parte).

Normalmente, os Modelos de Alpha monopolizam a atenção e a curiosidade do público, que tende a ignorar (muitas vezes por desconhecimento) o enorme valor dos outros personagens.

Como explicamos na coluna anterior, cada Modelo de Alpha procura explorar alguma ineficiência no mercado financeiro – em classes de ativos e geografias diferentes.

As estratégias podem variar entre tendência, reversão à média, cointegração, machine learning, entre outras. Dado que já exploramos de forma extensa esses modelos no outro artigo, não entraremos em detalhes aqui.

Os Modelos de Alpha, tipicamente, não se enxergam como parte de uma orquestra, e sim como músicos solitários. Isso significa que as posições tomadas por cada um deles, como regra geral, não levam em consideração o que os outros modelos estão fazendo. Esses algoritmos se preocupam apenas com a sua rotina, encarando a sua performance como um grande show solo (o que não acontece em uma orquestra verdadeira, vale notar).

É aí que entram os outros personagens.

O Maestro

Em um palco elevado e com uma visão completa de toda a orquestra, temos o maestro como figura central. No caso de um fundo quantitativo, quem faz esse papel é o Modelo de Alocação.

A responsabilidade deste “maestro” é definir o peso individual de cada Modelo de Alpha na carteira geral do fundo, buscando maximizar o retorno final da composição. Esse algoritmo, portanto, possui uma visão ampla da orquestra e deve levar em consideração quais ativos estão em operação e a relação entre si (correlação).

Para definir a distribuição do patrimônio do fundo entre os vários modelos disponíveis (e que individualmente são vencedores), o modelo se baseia em teorias de otimização de portfólio como Markowitz, Black-Litterman, Risk Parity, etc. A ideia é conseguir constituir a base de um sistema de alocação ideal de forma sistemática.

Vale ressaltar os traços de personalidade do nosso “maestro” no palco: ele sempre pensa no time, podendo deixar os melhores Modelos de Alpha de fora, se achar que o time como um todo será prejudicado. Suas decisões são sempre direcionadas para maximizar a harmonia do portfólio.

O Engenheiro de Som

Longe dos holofotes e sem chamar a atenção do público em geral, nosso engenheiro de som equivale ao Modelo de Risco do fundo.  

Com personalidade extremamente pessimista e detalhista, acredita que a Lei de Murphy é regra máxima, portanto, tudo o que pode dar errado, dará. Aos olhos de um investidor atento, deve ser considerado um dos personagens mais importantes da orquestra.

O Modelo de Risco possui não só uma visão geral da banda, supervisionando cada uma das performances individuais, como também observa a atuação do maestro. De forma simplificada, este modelo possui duas grandes atribuições:

  1. A primeira é definir, medir e neutralizar riscos secundários, que são inerentes a algumas posições do fundo. No mercado, é comum que uma posição seja acompanhada por exposições de risco não intencionais. Por exemplo: imagine que um Modelo de Alpha recebeu sinal de compra de ações da empresa Suzano (papel e celulose) por uma razão específica da empresa. Essa posição invariavelmente é acompanhada pelo risco cambial, uma vez que a empresa é uma grande exportadora. Nessa situação, o Modelo de Risco enviará uma ordem de venda de dólar futuro contra real, que fará o hedge da posição neutralizando o risco não intencional. Na prática, quase todas as posições no mercado financeiro são acompanhadas por exposições colaterais. Um dos trabalhos do Modelo de Risco é, na medida do possível, mitigá-las.

  2. O outro papel do nosso “engenheiro de som pessimista” é limitar as exposições do fundo. Com a capacidade de limitar ou reduzir o tamanho das posições dos Modelos de Alpha, este modelo usa métricas avançadas de controle de risco para definir as exposições do conjunto de modelos e colocar tamanhos máximos para exposições direcionais, setoriais ou por ativo. Em nosso paralelo com a orquestra, equivaleria a diminuir o volume de alguns instrumentos específicos ao longo da apresentação.

É importante mencionar que cada um dos Modelos de Alpha possui seus próprios limites de risco (stop loss, tamanho de posições, etc) pré-programados no próprio código. Entretanto, como se enxergam como peças solitárias e não como parte de um conjunto, é necessário que haja uma segunda instância de controle de tamanhos de posição e risco.

Nessa complexa tarefa entra uma das grandes vantagens da gestão quantitativa, que é a capacidade de utilizar dados históricos para suportar a tomada de decisão. Nesse sentido, o Modelo de Risco leva em consideração todos os piores momentos da história do mercado financeiro como parâmetros para simular os piores casos possíveis e limitar as posições. Qualquer situação que possa vir a ocorrer possui, ao menos em teoria, alguma situação análoga já vivenciada anteriormente em algum lugar do mundo. Claro que o inesperado acontece (afinal, essa é a principal crença do nosso engenheiro pessimista), e é justamente por isso que ele existe.

O Técnico de Som

Nosso técnico de som é o responsável por gerar a sensação de completa imersão da plateia na sinfonia que está sendo apresentada. Esse personagem, que leva em consideração fatores externos à orquestra, equivale ao Modelo de Execução.

Em nossa orquestra, cada instrumento está conectado com um amplificador, que capta as notas musicais, as converte em uma impressão digital e as transmite através de fibra ótica para a mesa do técnico. Sempre que um Modelo de Alpha precisa executar uma ordem no mercado (de compra ou venda), ela será enviada pelo Modelo de Execução.

O trabalho desse modelo é observar, entre outros, os dados de volume histórico de operações e constituição do book de ofertas do mercado; e assim determinar qual a melhor forma de executar as ordens. Ou seja, em nossa analogia, liberar o sinal pelos cabos para que eles cheguem aos alto falantes.

Na prática, os Modelos de Alpha enviam uma solicitação para o Modelo de Execução, informando o ativo, o preço, o volume a ser comprado/vendido e a janela de tempo em que a ordem deverá ser executada. O Modelo de Execução, por sua vez, observará os dados históricos de volume de transação e constituição do book de ofertas para enviar as ordens ao mercado de forma a minimizar o custo de transação e o impacto nos preços causado pela ordem.

O Criador

Nossa orquestra possui mais um último personagem, omitido propositalmente no início desse texto. Embora não esteja fisicamente presente no local da apresentação, esse personagem influencia diretamente a performance da orquestra.

É um personagem completamente diferente dos outros, porque sem ele não há orquestra alguma. É o criador da sinfonia que está sendo apresentada.

Verdadeiramente, todo o espetáculo de um fundo quantitativo é criado por um ser humano. Ele é o artista que, inspirado, escreve as sinfonias que ditará a qualidade da performance. Os músicos, o maestro, os engenheiros e os técnicos podem ser automatizados. Mas sempre restará à inspiração humana a criação da sinfonia.

No final, a melhor forma de entender um fundo quantitativo é entender quem são as cabeças por trás das máquinas. No caso da Giant Steps, clique aqui para conhecer os criadores de nossa orquestra.

Por Pedro Simonetti e Flávio Terni, da Giant Steps Capital.

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2 comentários em “Tipos de Algoritmo – Parte II : A Orquestra

  1. Avatar
    Lucas Salek disse:

    Incrível ver um fundo chamado Giant Steps – música revolucionária do Coltrane – redigir um artigo citando Chick Corea. Além disso tudo, uma analogia com orquestra, a fim de desmistificar conceitos de finanças quantitativas. Parabéns aos envolvidos! Sensacional

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